OPINIÃO | Fonte: CORREIO BRAZILIENSE

A única esperança é um Brasil Criança

Dioclécio Campos Júnior*

O período de 2017, ora iniciado, somente será um feliz ano-novo se o país trouxer à tona os valores originais das crianças. Não apenas para respeitá-los, mas para que sejam incorporados como a autêntica alma da nação. De nada adianta aumentar a esperança de vida ao nascer sem que os ingredientes indispensáveis a uma existência saudável e produtiva sejam assegurados igualmente a todos, desde o nascimento.

Há uma nítida relação de causa e efeito, ao longo do tempo, entre o pouco investimento na infância e a baixa produtividade econômica, de difícil reversão. As evidências são amplas. Não poderão mais ser ignoradas, sob pena de se condenar o país a uma realidade catastrófica cujos efeitos danosos já são abundantes e devastadores.

Sair da crise pressupõe mudanças profundas, inovadoras. Chover no molhado não é a solução. Os governos que se sucedem tomam sempre as mesmas medidas, diferentes apenas nas versões que lhes dão. Fazem mais do mesmo, divergindo somente nas aparências. Prognosticam êxitos que se restringem à forma, mas não geram o conteúdo transformador sem o qual prevalece a ilusória visão de um progresso que é, de fato, inexistente.

O fundo do poço não pode mais ser a moradia de um povo. Para que ele saia de tão deplorável condição, não há outro caminho que não o da convergência de energias voltadas para o compromisso com a mesma causa, a do Brasil Criança. É a estratégia de unificação de pensamentos e esforços visando à construção de uma proposta com o potencial de prosperidade que a sociedade merece.

O país nasceu há mais de cinco séculos. Já tem 516 anos, porém os requisitos da sua infância inovadora jamais lhe foram integralmente assegurados. É chegado o momento de se conceber o Brasil como a criança magnânima cujo crescimento e desenvolvimento nunca se fez adequadamente. As suas carências são múltiplas e cumulativas, de longa data. É um ente coletivo envelhecido, privado do direito de acesso aos recursos indispensáveis à expansão de toda a sua originalidade potencial. A solução é trazê-lo de volta ao universo da infância, período de sua história que foi sempre desvalorizado. Daí a necessidade de um projeto nacional que inclua avanços a serem discutidos, aprovados e implementados sem protelação.

Em primeiro lugar, a saúde pública há de ser prioritariamente entendida como prevenção das doenças por meio de investimentos adequados às mudanças do estilo de vida, ao saneamento básico, ao padrão e à segurança dos espaços urbanos, bem como à educação contínua das pessoas. Torna-se, então, bem claro que o Brasil não precisa de mais médicos. Ao contrário, requer menos doentes para que sua população seja constituída de forma saudável. Cabe, a propósito, considerar a qualidade da nutrição como base do bem-estar físico, mental e social do indivíduo e da comunidade a que pertence. Como disse o economista Gunnar Myrdal, “os povos são pobres e doentes porque produzem pouco e produzem pouco porque são pobres e doentes para produzirem mais”.

Por outro lado, o estímulo do desenvolvimento mental e comportamental do cidadão é essencial à diferenciação de todos os cérebros a fim de que a consciência coletiva do povo possa alcançar os níveis indispensáveis ao exercício da autêntica cidadania. Trata-se da política educacional que não deve ser vista apenas como multiplicação de escolas ou modalidades curriculares. O ambiente familiar é o mais importante núcleo de aprendizagem que, infelizmente, tem sido banalizado em detrimento do ninho afetivo que é o cerne da personalidade em formação.

O declínio da taxa de fecundidade é também enorme desafio a ser vencido. Quando tal índice é inferior a 2,1 crianças por mulher, a população não se renova. No Brasil, é hoje 1,7. A repercussão econômica será grave. A aposentadoria torna-se insustentável. O incentivo à natalidade deve, pois, fazer parte do projeto de reforma da previdência em discussão.

Ademais, outras providências são decisivas, como o fim do consumismo perdulário; a censura da propaganda mentirosa em defesa de uma comunicação honesta; a prevenção educativa do alcoolismo e do uso de drogas ilícitas; a redução da violência por meio do pacifismo abrangente; a extinção do partidarismo sectário em nome do humanismo solidário; e a redução das desigualdades, preconceitos e segregacionismos em favor da essencialidade humana da infância.

Assim, para um feliz ano-novo, só há uma esperança: o Brasil Criança.

*Dioclécio Campos Júnior é Médico, professor emérito da UnB, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria, membro titular da Academia Brasileirade Pediatria e presidente do Global Pediatric Education Consortium (GPEC)

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