SAÚDE E CIÊNCIA | Fonte: CORREIO BRAZILIENSE

Alzheimer tratado com cordão umbilical

A incidência de casos de Alzheimer aumenta consideravelmente à medida que a população envelhece – atingida a faixa dos 60 anos, a cada cinco, a taxa de pacientes dobra. Os tratamentos para essa doença neurodegenerativa, porém, não têm surgido com a mesma velocidade, apesar dos esforços de cientistas. Um grupo dos EUA tenta contê-la apostando em substâncias existentes antes mesmo do nascimento dos indivíduos: proteínas do cordão umbilical humano. Segundo eles, os resultados positivos obtidos em testes com ratos abrem a possibilidade para o desenvolvimento de medicamentos. Os resultados foram publicados na última edição da revista britânica Nature.Os pesquisadores foram motivados a investigar o assunto após outros estudos científicos indicarem propriedades terapêuticas de substâncias presentes no cordão umbilical. “Um artigo publicado na Nature em 2005 demonstrou que o sangue presente nesse anexo poderia rejuvenescer o músculo esquelético envelhecido. Estudos cerebrais também mostraram que aspectos do envelhecimento cerebral podiam ser revertidos pela exposição a “sangue jovem”. Por isso, ficamos interessados em identificar quais moléculas eram responsáveis por esses efeitos surpreendentes”, conta ao Correio Joseph Michael Castellano, um dos autores do novo estudo e pesquisador da Universidade de Stanford.

No experimento, ratos idosos receberam injeções de plasma retirado do cordão umbilical humano. Após alguns dias de tratamento, as cobaias passaram a obter melhores resultados em testes de aprendizagem, memória e plasticidade sináptica (a capacidade do cérebro de mudar e se adaptar a novas informações). Os investigadores analisaram o cérebro dos roedores e identificaram a proteína tecido inibidor de metaloproteinases 2 (TIMP2) como responsável pelo efeito benéfico. “Não temos certeza do mecanismo pelo qual a TIMP2 melhorou a cognição nos camundongos idosos após o tratamento. Com base nos nossos resultados, a proteína parece aumentar a plasticidade sináptica”, diz Castellano.

Os pesquisadores acreditam que a TIMP2 e outras proteínas presentes no cordão umbilical podem ser usadas no desenvolvimento de terapias que tratem doenças neurodegenerativas. “Nossos achados têm implicações para limitar o declínio cognitivo no envelhecimento e também no contexto de distúrbios neurodegenerativos, como a doença de Alzheimer. Estamos apenas começando a perceber que moléculas no sangue podem ser importantes para a forma como o cérebro responde ao envelhecimento e a doenças como a demência”, ressalta o autor.

Para Arthur Sousa, neurologista do Hospital Brasília, o estudo explora um segmento da saúde humana que precisa avançar. “Tem muito tempo que não temos uma novidade nessa área. As medicações que usamos para o tratamento do Alzheimer são voltadas apenas para melhorar a qualidade de vida dos pacientes, não temos meios que modifiquem essa deterioração. O que esses pesquisadores mostram pode ter esse objetivo, essa proteína se mostra promissora na proteção do hipocampo, região ligada à memória e ao aprendizado que se mostra deteriorada em casos de Alzheimer”, destaca o médico, que não participou do estudo.

Prevenção

Otimistas com os resultados obtidos, os cientistas ressaltam que muito ainda precisa ser desvendado até que a proteína estudada possa ser usada em tratamentos com humanos. “Eu gostaria de identificar o mecanismo pelo qual a TIMP2 provoca melhorias na aprendizagem, memória e plasticidade sináptica. Além disso, gostaria de avaliar a possibilidade de ela poder desempenhar algum papel na patologia da doença de Alzheimer”, diz Castellano.

Para Sousa, se chegar à clínica, o trabalho norte-americano poderá ser uma ferramenta de prevenção da demência, aliada ao diagnóstico precoce. “Sabemos que as doenças neurodegenerativas podem estar presentes mesmo 20 anos antes dos sintomas aparecerem e, para identificarmos isso, são necessários exames de imagem, como o de ressonância magnética, que mostram a perda de proteínas como a beta-amiloide. Dessa forma, o tratamento pode ser iniciado antes de surgirem os sintomas. Quem sabe com remédios criados com base em moléculas, como a desse estudo americano, seja possível impedir essa perda.”

Diagnóstico por anticorpos

A proteína tau é encontrada em excesso no cérebro de pessoas com doenças neurodegenerativas. Cientistas da Escola de Medicina da Universidade de Washington (EUA) desenvolveram um anticorpo que pode ajudar a medir os níveis desse composto no sangue, facilitando o diagnóstico. O estudo foi  publicado na última edição da revista Science Translational Medicine.

A tau está envolvida na manutenção da estrutura dos neurônios, mas, em excesso, forma emaranhados que danificam e matam essas células. Nos testes, os cientistas injetaram alta quantidade de tau nas veias de camundongos e monitoraram a rapidez com que ela desaparecia do sangue. Metade da proteína desapareceu em menos de nove minutos. Em seguida, injetaram um anticorpo que se liga à tau. Em dois dias, os níveis da proteína subiram para uma quantidade detectável. Os pesquisadores explicam que o anticorpo agiu como uma lupa, amplificando os níveis de tau para que ela pudesse ser notada com mais facilidade.

Em uma segunda etapa, o anticorpo foi administrado em quatro pessoas com paralisia supranuclear progressiva, doença que também mostra acúmulo de tau. Os níveis sanguíneos da proteína subiram de 50 para 100 em 48 horas. “É como um teste de estresse. Parece que estamos trazendo a capacidade de ver o que vem do cérebro porque o anticorpo amplifica as diferenças, prolongando o tempo que a proteína permanece no sangue”, detalha, em comunicado, David Holtzman, um dos autores do estudo. Hoje, não há um teste que mostre, com precisão, o status da tau no cérebro.

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