ARTIGO | Fonte: Claudia Beatriz

Vítima ou culpado?

Num cenário sem precedentes de caos pela desestruturação da rede e desobrigação das prefeituras e seus gestores, as maternidades da Capital ilustram cenas de terror. De quem é a responsabilidade?

A atenção primária não responde com qualidade ao pré-natal; não tem exames em número suficiente; não há agilidade nos resultados e há baixa confiança nos resultados dos exames. O acesso ao pré-natal de alto risco é difícil e patologias evitáveis não são diagnosticadas.

Desolador. Numa sinfonia horripilante, as prefeituras municipais da Região Metropolitana não se organizam para regionalizar a assistência do parto no interior, que ao final do ano demitem profissionais médicos e só voltam a “contratar” a partir de fevereiro, pois necessitam ajustar suas contas.

As maternidades da rede municipal do Recife estão estranguladas, gestantes se amontoam com seus familiares em triagens e outros setores da unidade de saúde, perdendo a dignidade. Usuários e profissionais são obrigados a conviver com o descaso. Escalas de plantão pra lá de incompletas, os serviços funcionam com o número de profissionais abaixo do mínimo, ficando setores com assistência precarizada e longo tempo de espera.

O descompromisso impera como nunca visto. Não existem nomeações de novos profissionais, não se restringe atendimento e se empurra com a barriga a séria realidade dessas maternidades.

Enfim, estado de emergência decretado. Na realidade as emergências obstétricas encontram-se em estado de emergência há muitos anos. As maternidades de alto risco superlotadas e dos hospitais regionais sem funcionar adequadamente e sem responder as demandas, todas sobre gestão estadual.

O problema está evidente, não existe estruturação em rede hierarquizada. Estado e municípios não avançam em ordenar a assistência. Vai projeto, vem projeto ( Mãe Coruja, Rede Cegonha …) e a realidade não muda.

Todos se albergam e em uníssono fala a mesma língua “não posso, estou sobre a lei de responsabilidade fiscal, já atingi o limite prudencial”, a crise sobre um contingenciamento das despesas.

As dificuldades são muitas, mas não vejo nenhuma prefeitura sem prefeito, nenhuma secretaria sem secretário. Mas nossas maternidades estão sem médicos, enfermeiros e técnicos, todos aguardando concurso e nomeação.

Os problemas são muitos, mas nos pleitos eleitorais não faltam candidatos e promessas. Enquanto isso, médicos trabalham exaustivamente nos serviços públicos e recebem opressões, ameaças como se fossem os culpados por este caos. Se expõem e pagam o preço da desassistência dos municípios e estados.

*Claudia Beatriz

Obstetra e Secretária Geral do Simepe

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