EDITORIAL | Fonte: O Estado de S. Paulo

Uma fila inaceitável

Quase 1 milhão de pessoas no País espera para realizar uma cirurgia eletiva no Sistema Único de Saúde(SUS). De acordo com levantamento feito pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) com dados de 16 Estados e 10 capitais, 904 mil pessoas esperam por uma cirurgia considerada não urgente no SUS. O número é preocupante e indica como o País ainda está longe de oferecer um sistema de saúde pública realmente universal à população. Espera longa é sinônimo de não atendimento.

Segundo o CFM, 750 pessoas estão na espera de uma cirurgia há mais de dez anos. Em São Paulo, há pessoas esperando por uma cirurgia desde 2005. É tempo demais. Apenas na rede paulista, 143 mil pacientes esperam por uma cirurgia eletiva. O Estado recordista é Minas Gerais, com 434.598 pessoas na fila por um procedimento no SUS.

Cinco tipos de procedimento concentram quase metade de todos os pedidos na fila do SUS. Em primeiro lugar, está a cirurgia de catarata (113.185 pessoas na fila), seguida de correção de hérnia (95.752 pessoas), retirada da vesícula (90.275 pessoas), varizes (77.854 pessoas) e amígdalas ou adenoide (37.776 pessoas).

O tamanho da fila do SUS pode ser ainda maior, já que o levantamento do CFM não incluiu todos os Estados. Os dados foram obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação, mas nem todos os Estados responderam.

Além disso, o número de pessoas na fila não expressa com exatidão a demanda pelas cirurgias eletivas. “Há ainda aquelas pessoas que precisam da cirurgia, mas nem sequer têm acesso ao especialista que dá o encaminhamento”, disse Mauro Luiz de Britto Ribeiro, presidente em exercício do CFM.

A longa fila do SUS para uma cirurgia eletiva pode transmitir a equivocada impressão de que, pelo fato de o procedimento não ser urgente, o paciente pode esperar. Ainda que não seja um caso de emergência, a cirurgia é necessária. Como alertam os especialistas, a demora em realizar o procedimento pode agravar o quadro de saúde do paciente, o que piora o prognóstico e aumenta os custos do sistema de saúde. Quem não faz a cirurgia eletiva, diz Britto Ribeiro, “vai acabar caindo um dia no sistema de urgência e emergência ou operando num quadro muito pior do que no início da doença”.

Como mostrou reportagem do Estado, Ana Célia Gonçalves está à espera de uma cirurgia no SUS desde 2012. Na época, ela apresentava um quadro leve de cálculo renal.

Agora, descobriu-se que o rim direito perdeu mais de 80% de sua capacidade funcional e a atual prescrição médica é para a retirada do órgão. “Quando reclamo, só ouço que tenho de ter paciência e aguardar na fila”, disse Ana Célia Gonçalves. “Tenho medo de perder o outro rim e precisar, então, de diálise e entrar na fila de transplante.” O drama da espera é agravado pela falta de informação.

Os pacientes não sabem quando o procedimento será realizado.

Claudia Aparecida de Lana sofre de hérnia de hiato, uma doença no sistema digestivo, em estado avançado. Ela está na fila do sistema estadual de saúde desde setembro de 2014.

Na última consulta, em fins de outubro, o médico espantouse com a demora da cirurgia e foi consultar o sistema. “Ele não me disse em que lugar da fila eu estou, só avisou que a cirurgia vai demorar mais um pouquinho”, relatou Claudia ao Estado.

Apontado como um dos maiores avanços consagrados pela Constituição de 1988, o Sistema Único de Saúde tem muito a realizar até garantir de fato atendimento de saúde integral para todos os brasileiros.

Não raro, aponta-se que uma das principais deficiências do sistema de saúde brasileiro é priorizar o tratamento da doença, e não o do paciente, sem dar a devida atenção para a medicina preventiva. Os números levantados pelo CFM sobre a fila para cirurgias eletivas indicam que, mesmo onde seria a suposta prioridade do SUS, há muito a ser feito. A fila do SUS é uma ferida aberta, para a qual não cabem cuidados paliativos. É preciso atender quem precisa.

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