CIDADES | Fonte: JORNAL DO COMMERCIO

Adultos são alvo de casos neurológicos

ARBOVIROSES Faixa etária em idade produtiva, dos 20 aos 49 anos, é a mais atingida por complicações decorrentes de dengue e chicungunha

Pelo menos um terço dos casos de síndromes neurológicas relacionadas a arboviroses, registrados em três unidades sentinelas em Pernambuco, representa a faixa etária em idade produtiva – dos 20 aos 49 anos. O dado está no boletim de doenças neuroinvasivas relacionadas a arboviroses, divulgado ontem pela Secretaria Estadual de Saúde (SES), com o retrato das complicações em 2016 e 2017. Nesse grupo etário, 60 casos foram notificados no período. Em seguida, vêm crianças até 9 anos (41 casos) e idosos, com 60 anos ou mais (37 casos).

“Numa primeira epidemia, espera-se que os adultos sejam os que mais adoeçam. Consequentemente, são os que apresentaram quadros neurológicos com maior frequência, em comparação a outras faixas etárias”, diz o médico Carlos Brito, membro do Comitê Técnico de Arboviroses do Ministério da Saúde. Ao falar em primeira epidemia, ele se refere às explosões de casos de zika e chicungunha que atingiram o Brasil, especialmente Pernambuco, em 2015 e 2016. “Imagina-se que os adultos são os mais afetados porque representam a população predominante e a mais exposta aos vírus (pelo fato de mais circular, inclusive em ambientes com proliferação do Aedes).”

Para o médico, um detalhe que chama a atenção, no boletim divulgado ontem, é a ausência de síndromes neurológicas associadas à infecção pelo zika – vírus que tem predileção por atacar o sistema nervoso central. “Não foram confirmados casos de DNI (sigla para doenças neuroinvasivas) relacionados ao vírus zika, possivelmente pela característica técnica dos exames disponíveis para a identificação desse vírus e pela oportunidade do tempo de coleta”, destaca o informe técnico da SES.

Esse é um fato que, para os especialistas, pode justificar a falta do zika no levantamento das unidades sentinelas. “Os testes sorológicos adotados atualmente podem dar reação cruzada entre dengue e zika (ou seja, casos de zika podem dar falso positivo para dengue). Para essas situações, o PRNT (testes de neutralização por redução de placas) seria o mais adequado porque ajuda a diferenciar a reação cruzada”, esclarece Carlos Brito.

Nos dois anos analisados, com base nos dados registrados pelas três unidades sentinelas (ver quadro ao lado), entre os 172 casos suspeitos de doenças neuroinvasivas possivelmente associadas a arboviroses no período, 57 mostraram relação com a síndrome de Guillain-Barré. O problema é caracterizado por uma reação autoimune do organismo à infecção viral, que ataca nervos periféricos e causa paralisias. Em seguida, vemos casos de mielite, encefalite e meningoencefalite.

“Ainda continuamos a ver muitos quadros neurológicos, mas não temos como afirmar que estão relacionados a arboviroses porque aguardamos resultados dos exames. Não sai rapidamente”, frisa a médica Lúcia Brito, chefe do Setor de Neurologia do Hospital da Restauração. Em evento realizado em agosto do ano passado, ela e outros pesquisadores do Neurozika, grupo que congrega também especialistas da Fiocruz Pernambuco, já havia antecipado uma análise de série de casos de doenças neuroinvasivas: de 212 pacientes investigados com comprometimento neurológico, 140 tiveram quadros associados a arboviroses.

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